quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Manifesto contemporâneo


Vivemos numa era em que não basta estarmos ligados no presente. É preciso que este presente já esteja com os dois pés no futuro. Mal uma novidade chega, já é substituída por outra, que, no minuto seguinte já ficou pra trás. Essa é a Ditadura da Atualidade, cultuada por repórteres moderninhos, médicos moderninhos, publicitários moderninhos, engenheiros moderninhos, cineastas moderninhos e todo o tipo de moderninho que se acha cool porque ouve a Mallu Magalhães -nada contra o talento da guria debutante, e sim contra a sua modinha chatinha - vai ao CB ou ao Studio SP e está sempre circulando pela Augusta.
Sim, este blog não é nada democrático. Ele é lotado de idiossincrasias e o que queremos combater aqui é esta pressa desenfreada pelo novo, essa disputa pra ver quem descobre primeiro a "maior banda dos últimos tempos da última semana". Definitivamente, estamos cansados da Ditadura da Atualidade, mas é preciso botar os pingos nos is primeiro. Este blog não tem a pretensão de ser chamado de retrô, apesar de adorar tudo o que é vintage, nem muito menos quer combater o novo. De jeito algum. Não somos saudosistas nem futuristas de nada. Apenas não entendemos porque algo que surgiu há um ou dez anos é considerado antiquado pra muitos. Aqui cabe uma reflexão histórica. Se olharmos pra trás, veremos que todos os movimentos e seus ismos - Romantismo, Realismo, Modernismo, etc - demoraram no mínimo uma década para se solidificar. E eles ainda reverberam até hoje. Ou vai dizer que carta de amor pra namorado caiu em desuso? Vai dizer que o sexo, que o Realismo descobriu como explorar, está fora de moda? E Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Pagu, quem vai ter coragem de dizer que não continuam atualíssimos? Heim, heim? Além do mais, são todas essas referências da época de nossas avós e bisas que asfaltaram o terreno para que as novidades que tanto cultuamos pudessem chegar.
Voltando à "fofíssima" (como muitos a chamam) da Mallu Magalhães: quem seria essa guria hoje se lá atrás, em 1941, não tivesse nascido um magrelo de cabelos enrolados cujo nome é Robert Allen Zimmerman, mais conhecido como Bob Dylan? Ela provavelmente estaria delirando ao som de Rebelde ou Rihana hoje, vai saber. O interessante de tudo isso é que os adolescentes alucinados pela Malluzinha fofinha mal se dão ao trabalho de saber quem é o Robert Allen Zimmerman que a influenciou a compor suas belas canções. Ainda bem que ele não está nem aí pra isso. Afinal, Bob Dylan não precisa ser lembrado, mas cultuado. E ai de quem pense o contrário. Catiripapo na certa!
O que propomos aqui não é uma ode ao passado e um sumário esquecimento do presente. Não!!! A gente adora a Amy Winehouse, mas também amamos a Edith Piaf! Propomos neste espaço a reconciliação do presente com passado e, por extensão, o futuro. Avô, pai e netos do tempo convivendo em perfeita harmonia, como reza a ordem das coisas (apesar de a Física Quântica, outra coisa antiga, já ter provado que o tempo não existe, mas isso é assunto pra depois. Não vamos confundir a cabeça dos nossos leitores.).
Propomos ainda a abolição do termo Atualidade. Ou melhor, sejamos mais leves. Propomos uma substituição pela palavra Contemporaneidade que, além de tudo, é muito mais elegante por ter mais sílabas. Mas o que vem a ser essa tal de Contemporaneidade? Que ninguém jogue pedra agora, dizendo que a palavra acaba de ser inventada para justificar o movimento. De forma alguma, muito pelo contrário, nosso movimento tem sólidas bases teóricas.
Estamos amparados histórica e filosoficamente por dois grandes pensadores dos séculos 20 e 21: o historiador britânico Eric Hobsbawm, nascido em 1917 e ainda vivo, e o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, nascido em 1921 e ainda vivo também. Estes dois gigantes do pensamento contemporâneo viveram praticamente todo o século 20 e continuam atuantes ainda hoje. E ambos concordam que a História deve ser observada com uma lupa macroscópica, em períodos maiores de tempo. Hobsbawm por exemplo, em seu livro "Era dos Extremos" apelidou o século passado de "O Breve Século 20" pois, para ele, este período não se iniciou em 1900 ou 1901 e acabou no ano 2000. O historiador divide o século passado da seguinte forma: ele se iniciou em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial e terminou em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Para a História, não é o tempo cronólogico que importa, mas as mudanças que foram determinantes no período. Ou seja, se o século 20 acabou em 1989, não podemos dizer que uma banda como Nirvana, que foi fundada em 1987 e desfeita em 1994 com a morte trágica de Kurt Cobain, seja do século passado. Não. O Nirvana é tão do nosso século quanto o Fresno. E cada macaco no seu galho.
Pra simplificar. Contemporâneo é tudo aquilo que é atual e perdura. Como um pretinho básico de Coco Channel, minha chará. O contemporâneo nunca sai de moda, enquanto que o atual é sempre fugaz. Então, sejamos contemporâneos, é muito mais chic, cool, in, minha gente! Para celebrarmos este que tem a pretensão sim de se tornar um movimento, segue a nossa música-tema. Antes dos chatonildos de plantão jogarem pedras por ela ser dos Engenheiros do Hawaii, vai uma observação. A banda é atualíssima - melhor dizendo, contemporaníssima - pois suas letras, escritas em meados da década de 90, ainda fazem sentido hoje. Amem ou odeiem Humberto Gessinger, isso não vem ao caso. Aqui só importa o que ele escreveu, em 1990, dois anos antes do nascimento da nossa querida Mallu Magalhães que, justiça seja feita, é ótima.

Nunca Mais Poder
Engenheiros do Hawaii
Composição: Humberto Gessinger

Todo mundo é eterno
Todo mundo é moderno
Como um relógio antigo
No underground
No mainstream
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno
Ontem
Ano passado
Antigamente
Amanhã
Ano que vem
Ano dois mil
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno
Da boca pra fora
Do fundo do coração
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno
Como um relógio antigo(cultura e hora certa pra você)
Todo mundo é eterno
Todo mundo é moderno
Como um relógio antigo
Atrás de brilho e de barulho
Escondido dentro de si mesmo
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno
Em Havana
No Havaí
No Hawaii
Na highway
Malditos
Benditos
Acabados e infinitos
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno
Quem cura
Quem envenena
Quem gera
Quem extermina
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno
Como um relógio antigo
Então? porque este medo de ficar prá trás?
De não ser sempre mais?
De nunca mais poder?
Então? porque este medo de ficar prá trás?
De não ser sempre mais?
De nunca mais poder?
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno
Como um relógio antigo
Todo mundo é eterno
Todo mundo é moderno
Como um calendário do ano passado
Como a Coluna Prestes
As colunas do Niemeyer
Como a Holanda de 74
Um símbolo sexual dos anos 60
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno
O papa é moderno
O pop é eterno
Então? porque este medo de ficar prá trás?
De não ser sempre mais?
De nunca mais poder?
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno

Nenhum comentário:

Postar um comentário